
É engraçado começar um texto assim, foram raras as vezes em que eu me vi sobre essa ótica, uma terapeuta de mim mesma. Pode ser que eu esteja enlouquecendo, mas me ouvir tem sido um bom caminho para compreender as lições.
Acho mesmo que as pessoas deveriam fazer isso mais vezes, se ouvir, refletir e se expressar quanto ao que aprendem e como agem em seus caminhos, ao menos com os bons exemplos, assim muitas pessoas poderiam se basear nas experiências do coletivo e quem sabe aprender mais pelo amor do que pela dor.
Já tem algum tempo que eu propus conscientemente a prática do desapego, mas, mesmo sem saber eu já o vinha aprendendo...
Logo no inicio do ano, deixei algumas coisas que me faziam mal, alguns pensamentos, algumas memórias e coisas que já não condiziam mais com minha forma de ver a vida, porque a gente muda, e muda muito quando começa a se conhecer, e aí, coisas que antes faziam sentido, deixam de fazer e passam a ser apenas mais um peso em nossas costas, que precisa urgentemente ser eliminado, se não, nos sufocamos tanto, ao ponto de deixarmos de existir para sustentar as aparências do que um dia já fomos.
E foi por aí que muitas mudanças começaram a acontecer, eu comecei a fazer o que realmente gostava, aprendi a ser sincera e verdadeira, mas com cuidado e jogo de cintura, claro..., porque magoar as pessoas com a verdade nunca foi uma de minhas metas...
Mesmo assim, muitas coisas ainda estavam presas em minha jornada, trabalho, relacionamentos, dinheiro e aquela tal paz de espírito que eu ainda não tinha encontrado!
Em julho deste ano, resolvi fazer aquela faxina no meu quarto, sabe aquela que a gente faz uma vez a cada dez anos e que joga fora todas as cartas antigas, todos os frascos vazios de perfume e doa as roupas que não servem mais?! Pois é, foi ela que eu fiz! Tirei tudo, realmente e literalmente, tudo de dentro dos armários, os do quarto e os da minha alma.
Com todos esses movimentos, joguei muita coisa fora, dissolvi muitas dores e memórias que ainda estavam entaladas em minha garganta e represadas em meu coração, depois disso passei vários dias com dor de garganta e dor de cabeça, também pudera, tanta coisa foi liberada e além dos sintomas físicos, uma certa dor na alma, um certo peso, e talvez até um certo rancor me acompanharam.
Cada lembrança revivida era uma lagrima chorada, foi doloroso, afinal uma limpeza dessas envolve muita energia estagnada, tanto nas coisas, como dentro da gente. Levei uma semana pra por tudo em ordem, limpinho, bonitinho e organizadinho, já o coração andou dolorido por alguns meses, mas agora com muito mais espaço e assim como os armários, com lugar para as coisas novas, como no dito popular e verdade universal, logo após a tempestade vem a bonança!
Foi aqui que percebi que estava me desapegando das coisas e das histórias que não me serviam mais. Depois do quarto, a onda de organização foi para a sala, e um antigo escritório desativado em minha casa, a sala renovou-se e ficou mais ampla, o escritório, agora, vai virar um ateliê e um centro de atividades físicas (que eu tenho lá minhas dúvidas que vou freqüentar..., bom, mas este, é assunto para outro texto).
Agora sem todo aquele entulho emocional, que eu guardava inutilmente, encontrei caminhos que antes eu não havia percebido e que estavam o tempo todo na minha frente, mas eu estava tão cheia que não conseguia ver, e a partir daqui tudo começou a fluir melhor, as idéias para o trabalho, as artes, os relacionamentos, que cá entre nós ainda não fluiu tanto assim, mas vai, uma hora vai.
Agora, ando aprendendo sobre o desapego aos sentimentos e comparações, já parou pra analisar o quanto isso assombra as pessoas?
É o apego ao amor do outro, é o apego a crítica que nos dão, é o apego ao negativismo, apego ao que outro é ou deixa de ser, algumas pessoas tem mania de se comparar com as outras, ou comparam a gente com todo mundo, poxa, eu não sou todo mundo, você não é todo mundo, e mesmo que façamos parte de um todo, cada qual contribui com suas diferenças para o bem comum, é ou não é verdade?
Eu mesma confesso que já me comparei várias e várias vezes, incansáveis e incontáveis vezes, e sabe o que tive em todas essas elas, frustração, ou porque eu não conseguia ser como queriam, ou porque a vida do outro me parecia mais vida (ao olhar afoito, a grama do vizinho sempre parece mais verde né!)...
E era ilusão, cada um tem seus erros, seus medos, suas dores, suas histórias fracassadas e seus entulhos mofados no fundo das memórias, o que acontece é que alguns fingem, outros assumem e poucos superam, eu escolhi me superar, não com base no que os outros pensavam pra mim, mas baseada na minha missão de vida, no que me traria a verdadeira paz de espírito, e bingo, não é que consegui, a minha paz, o meu espírito, livre, leve e vivo!
Muita gente torceu o nariz pra isso, algumas pessoas se afastaram, mas os que me amam mesmo adoraram a novidade, sabe por quê?
Eu deixei de ser tão preocupada com o rumo que a vida tomava, pra dar lugar a minha e a felicidade dos que são meus e dos que chegam em minha vida.
E foi assim, nessa postura de aceitação e desapegada de expectativas, de comparações e de sentimentos, que pude entender que se existe mesmo amor (e no fundo é ele que promove a paz de espírito), ele deixa ir e vir o que tem que ser, sem acorrentar-se a qualquer coisa ou pessoa!
Ir e vir, assim, como seus olhos por entre as palavras...
Ufa, como se diz mesmo?
Os anos têm lições que os dias não vêem...
É acho que é isso mesmo!
Beijos de Luz em sua alma,
Camila K. Marchiodi